Imagens Pinterest
18 de out. de 2023
17 de out. de 2023
Toalhas de banho infantil
NÃO MAIS
Não, eu não quero mais dar espaço para quem precisa de décadas para decidir se gosta de mim ou não. Para quem machuca meu coração com ares de que me presenteia. Para quem faz o meu sorriso encolher. Para quem me agride delicadamente para fazer de conta que eu não percebo. Para quem me deixa sem graça.
Não, eu não quero mais dar trela a quem quer me impressionar com a sua perfeição para lidar com isso, aquilo e aquilo outro e expõe desnecessariamente as minhas dificuldades, minhas fragilidades, minhas áreas onde não bate sol.
Não, eu não quero mais dar licença para quem me oferta julgamento disfarçado de auxílio. Para quem parece acreditar que me conhece mais do que eu. Para quem bagunça a minha energia com a maior naturalidade, sem lembrar do trabalho que dá para arrumar depois.
Não, eu não quero mais dar ouvido às falas que não sejam tão pacíficas como o silêncio. Tão bondosas como os corais de passarinhos de manhãzinha, quando o dia acorda. Respeitosas, empáticas, cheias de luz. Não quero mais dar ouvido a quem quer os meus brinquedos, mas não quer brincar comigo.
Não, eu não quero.
Ana Jácomo
30 de set. de 2023
Luto
Sim
para sempre
não há fechar ciclos
meter a vida
dobrada numa
e noutra
gaveta
muito menos
gente
tudo é grande
maior
e fica
fica
mesmo que os olhos
do corpo
não vejam
e cada pedacinho
aperte
nas lágrimas que caem
no coração recolhido
ao pequenino
na vontade primária
do regresso à posição
primeira
se faça presente
no retorno a esse lugar
quieto
e seguro
onde se quer ficar
dói
viver
nas "perdas" da vida
mesmo
que a teoria seja
sabida no soletrar
da lengalenga
de que nada morre
de que tudo é como é
que o amor é eterno
e que tudo têm um propósito
e que a morte é missão cumprida
na vida que segue adiante
sim
está bem
muito bonito
para emoldurar
e sim
poder ficar nesse rezo
dos dias de sol
mas a dor
permanece
nos dias de chuva
e tempestades
que vão sempre
acontecer
e sim
é aí
que se sente
que é para sempre
não arrancamos pedaços
de nós
a cada pessoa que vai
a cada história que chega ao fim
não
NÃO
é impossível
tudo segue em cada célula nossa
somos a vivência viva
para sempre
somos as pessoas
que nos cruzam a existência
somos as histórias
que partilhamos os nossos instantes
claro
que vamos passar
estágios
o tal percurso do luto
sim
e ele não têm a missão
de comandar a nossa vida
NÃO
e sim
o tempo
traz algumas ruelas bonitas
para descansar
mas tudo vai sempre
fazer parte
de nós
e é nesse para sempre
descansado
e rendido
que tudo fica mais fácil
mesmo
e principalmente
naqueles instantes
em que se deseja
ter de volta
alguém
que amámos
ou voltar
aquele recanto da história
onde foi bom
existir
o luto é para sempre
até que a memória se diluir
ou o coração
simplesmente
parar
até lá
seremos saudade
num luto latente em nós
nos dias que vai doer muito
e noutros tantos
onde que nos iremos lembrar
que tudo aqui é tão pequenino
no apego
no infinito que somos
[noutro] lugar
aí
mas até lá
somos só humanos para sempre
Texto Sónia Machado Oliveira
19 de set. de 2023
Caminho de mesa Flores
Caminho de mesa confeccionado com linha ANNE. Medida 1.32 cm x 38 cm. Espero que gostem.🙏🥰
Fiquei sozinha um domingo
Não telefonei para ninguém e ninguém me telefonou. Estava totalmente só.
Fiquei sentada num sofá com o pensamento livre. Mas no decorrer desse dia até a hora de dormir tive umas três vezes um súbito reconhecimento de mim mesma e do mundo que me assombrou e me fez mergulhar em profundezas obscuras de onde saí para uma luz de ouro.
Era o encontro do eu com o eu. A solidão é um luxo.
Clarice Lispector
12 de set. de 2023
9 de set. de 2023
Charles Bradley
Please, hold a space for me ( favor, guarde um espaço para mim)
I’m walking this planet Mamma like you taught me to do (Estou andando por este planeta, mamãe, como você me ensinou)
I’m walking. Trying to find you, Mamma (Estou andando. Tentando te encontrar, mamãe)
One day, when God says well done (Um dia, quando Deus disser que acabou)
Please, be at the gate waiting for me (Por favor, esteja no portão me esperando)
10 de ago. de 2023
Crochê
Metade
Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio...
Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste...
Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.
Porque a metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.
Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.
E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.
Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.
Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor,
e a outra...
também.
Oswaldo Montenegro
5 de ago. de 2023
Alzheimer recolhendo os pedaços.
Voltar para casa
“Tanto faz o dia em que estamos, mamãe me pergunta o tempo todo que dia é esse. Ela está vivendo em um tempo fora do tempo, em um espaço quase sem lembranças. Por mais que procure algo familiar aqui na minha casa, ela não o encontra, quer as amigas, o cheiro de fumaça de caminhão, o barulho do escapamento, este lugar não cabe no coração dela. É como se flutuasse acima do mundo real e se protegesse de tudo com esse manto de insanidade.
Ela tenta se agarrar às lembranças das avós, dos irmãos quando eram crianças, na tentativa de resgatar a mulher que ela está perdendo.”
(Alzheimer diário do esquecimento)
Meus pais pediam insistentemente, para eu levá-los de volta para casa.
Papai nunca saiu de sua casa, mas a casa saiu dele; mamãe morava comigo, mas nunca saiu daquela casa, que ela sonhava retornar.
Aos poucos eu fui entendendo o que significava “voltar para casa”. Eles querem resgatar a casa que um dia abrigou Felicidade, na verdade eles queriam voltar para aquela Felicidade.
Não era a casa de tijolos e portas, janelas e piso rangendo. Era a casa que abrigava o barulho das crianças brincando; o cheiro de café e o gosto de bolo de fubá; o perfume do travesseiro, que guardava seus segredos; o cheiro do bife que só mamãe sabia preparar; o perfume do dia de limpeza e o cheiro da pipoca.
A casa era a maçaneta da porta rangendo, quando papai voltava do trabalho; ou o pano de chão sobre o tapete, que mamãe insistia em colocar para manter o tapete limpo.
A casa para onde eles querem voltar é feita dos detalhes da torneira pingando, que papai adorava consertar; do batente arranhado pelas escaladas das crianças inquietas; é a casa que abrigou o sonho de família, de felicidade, de prosperidade; a casa paga em muitas prestações, e cada uma delas tinha um gosto de vitória…
Eles querem morar naquela felicidade, e eu também."
Míriam Morata - trecho de Alzheimer recolhendo os pedaços
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